GRAÇA: ANOTAÇÕES TEOLÓGICAS A RESPEITO DA GRAÇA

BREVE ESTUDO SOBRE A GRAÇA

Segundo São Tomás de Aquino, teologia é o estudo das coisas de Deus.

Ora, o que se entende por “coisas de Deus”? Tudo.

Logo, teologia é o estudo de tudo o que diz respeito a Deus, o que está ligado a Deus.

E o que pode ser mais teológico que o estudo da Graça?

Muito se fala sobre a Graça, mas ela dificilmente é analisada em seu todo.

A palavra Graça é de origem latina: “GRATIA”.

E a origem latina tem raiz grega “CHÁRIS” (fonética: “RARIS”).

Na língua hebraica, a língua inspirada por excelência, a língua de Deus, não existe uma palavra para expressar o conceito de Graça.

De fato, não há em todo o Antigo Testamento, texto original, a presença da palavra Graça.

A Graça, dom gratuito de Deus e imantado de amor, não aparece como Graça propriamente dita no corpo do Antigo Testamento. O que se tem são situações, atitudes, elementos que permitiram ao tradutor grego aproximar-se do conceito de “CHÁRIS”.
Por exemplo, o substantivo HEN, cujo verbo é HANAN, autoriza simetria com o conceito de CHÁRIS.
HEN significa abaixar, inclinar.

A Bíblia, especialmente o Antigo Testamento, usa com abundância as palavras HEN e HANAN para expressar atitudes de Deus em relação ao Seu povo.

Deus, portanto, é aquele que se abaixa para olhar e ouvir o seu povo.

O Todo-Poderoso, Senhor de tudo e de todos, inclina-se, abaixa-se, para cuidar do povo que Ele escolheu com predileção.

Considerando que o judeu é concretista, a comparação é imediata com a mãe que se abaixa para cuidar do filho é uma figura poderosa e rica, bem apropriada.

O Deus de Israel é um Deus a favor do Seu povo.
Gn 6,8 “Noé encontrou GRAÇA aos olhos de Deus”. Originalmente, têm-se no lugar de Graça as seguintes palavras SIMPATIA, PREOCUPAÇÃO, ZELO, palavras que se encaixam como luva à mão ao significado de HEN.

Noé encontrou simpatia aos olhos de Deus.
As palavras, em verdade, se encaixam ao conceito amplo de HEN, mas não traduzem com perfeição o significado mais profundo que a palavra encerra.

Eis um grande drama: as palavras hebraicas são densas, robustas, fortes, nem sempre traduzíveis com facilidade.

Uma palavra hebraica contém em si mesmo uma infindável gama de significados.

Por isso, Graça foi uma palavra nascida para expressar melhor o conteúdo original hebraico.
Vejamos:
Ex 3,21: “Darei a este povo a boa Graça dos egípcios”
Ex 11,3: “O Senhor fez com que o povo encontrasse graça”
Pr 1,9: “Formoso diadema, diadema de Graça” (no texto original, hebraico, formoso e Graça são expressados pela mesma palavra HEN). O HEN foi utilizado para transmitir a idéia de uma coroa (diadema) que causa admiração por sua beleza. (sempre é bom lembrar o valor da beleza no plano da salvação, pois a beleza, aquela que não é purpurina, conduz ao Senhor de toda beleza).
Sb, 3,9: “(…) pois Graça e misericórdia são para seus santos”. {nesta afirmação Bíblica, a palavra HEN, traduzida por Graça, tem o sentido de favor}.

Existe, pois, uma relação entre essa simpatia especial e Deus, sendo a Graça, pois, a BENIGNIDADE DE DEUS.

Isso ficou bem evidenciado e a palavra Graça foi introduzida nas Sagradas Escrituras pela famosa TRADUÇÃO DOS SETENTA.

E o que foi essa tradução dos setenta, ocorrida muito antes de Cristo.

Os próprios judeus traduziram a Bíblia, então apenas o Antigo Testamento (os principais livros, pois ainda não existia a Igreja e a canonização dos livros Sagrados) do hebraico para o latim.

Para a tarefa foram convocados setenta sábios que foram mantidos incomunicáveis.

Os setenta textos foram tão similares entre si que os judeus viram nisso a inegável ação de Deus.
Por isso que a TRADUÇÃO DOS SETENTA é reconhecida, válida e legítima e integra o corpo de 600 homens, diretamente inspirados por Deus, pelo Espírito Santo, que escreveram a Bíblia ao longo dos séculos até sua formatação final determinada pela Igreja (Católica).

A tradução dos setenta utilizou a palavra grega CHÁR (verbo) para significar HANAR (verbo).
CHÁR significa brilhar, reluzir e, tradicionalmente, o que brilha tem sentido bom, positivo.
Saindo da arena do verbo e entrando nos campos dos substantivos e/ou adjetivos a palavra na sua versão grega também foi usada para significar luz, estrela, fogo, sol, cristalino.

Mas o hebraico ainda tinha outras deliciosas armadilhas aos tradutores.
Palavra derivada de HEN e de HANAR é a HESED que significa em vernáculo: MISERICÓRDIA, BONDADE, BENIGNIDADE.
Todas palavras que expressam atitudes muito positivas de Deus em relação ao povo.

HESED é a raiz mais provavelmente direta do que se pode chamar TEOLOGIA DA GRAÇA.
Bem a propósito a chamada APARIÇÃO DE DEUS, fato que dá origem a profissão de fé de Moisés, aquela tida como a anterior ao Shemá Israel, como exposto em Ex 34,6-7
IAWEH, IAWEH (Senhor, Senhor), Deus de ternura e piedade, lento para a cólera, rico em graça e fidelidade.
Interessante notar a tendência ao antroporfomismo consistente em colocar em Deus os sentimentos humanos, tudo com caráter pedagógico.

As palavras multiplicam e dão sentido ao necessário advento da Graça.
EMET, BERITH, palavras que significam FIDELIDADE e ALIANÇA, respectivamente, aparecem ao lado de HESSED, MISERICÓRDIA. Todas ligadas formam o cadinho de elementos lingüísticos de GRAÇA.

E pode não ser uma GRAÇA, um poderoso favor de Deus, uma afirmação como esta: DEUS PODE FAZER DAS PEDRAS, FILHOS DE ABRAÃO?
Outra palavra hebraica, com intenso significado, abraçada pela palavra Graça foi RAHAMIN, literalmente ENTRANHAS. Mas entranhas com sentimento singular, maternal, pois RAHAMIN são as entranhas humanas que expressam sentimentos, como as da mãe que vela o filho.

Todas palavras que se encontram e se fundem em CHÁRIS e dão sentido profundo, visceral, ao amor de Deus por seu povo.
Um Deus que se inclina, que se comporta como mãe, a mãe que cuidado que foi gerado em suas entranhas, que age com amor, com benignidade, sempre em favor do povo com que fez aliança e é final (em suma, a Graça em estado bruto).

A Graça, portanto, é o cuidado de Deus com o seu povo e uma aliança.
Uma aliança tão poderosa como a expressada pela palavra hebraica BERITH.
BERITH não é uma aliança qualquer, mas a aliança que confere a certeza que se o lado humano falhar, o Divino jamais falhará, porque DEUS É FIEL.
Muito aproveita entender Ez 16 e Oz 11, dois textos proféticos e balizadores da compreensão da Graça no Antigo Testamento, textos que apresentam afirmações heróicas como:

“DO EGITO EU TE CHAMEI”
“MEU CORAÇÃO SE CONTORCE DENTRO DE MIM, EU SOU DEUS E NÃO UM HOMEM”
“A ESPADA GIRA EM SUAS CIDADES”

O chamado é algo muito importante no campo da fé.

Deus nos chama pelos nossos nomes e nos apresenta a vocação.

Deus nos ama intensamente, a ponto de o Seu coração contorcer.

Deus não pensa como o homem pensa, mas como Deus.

E a justiça de Deus, todo amor, pode ser pesada e incompreensível à lógica humana.

Tudo, pode-se ver com facilidade, profundamente interligado.

A TEOLOGIA DA GRAÇA prossegue no NOVO TESTAMENTO.

Nem poderia ser diferente, pois onde Deus está não há outra experiência que não seja a da própria Graça.

Nos santos Evangelhos, rigorosamente, a palavra aparece poucas vezes. Todavia, ela intrinsecamente se espalha por todos os quatro, os três sinóticos e o místico, de São João.

Mateus e Marcos não a usam, porque mais intimamente ligados à cultura judaica e focados no convencimento das lideranças religiosas dos seus tempos e na transformação das tradições rabiníticas.

São Lucas, discípulo de São Paulo, faz uso da palavra Graça.

São João, o discípulo amado, usa-a apenas no prólogo, mas o faz com tanta perfeição e maestria que não foi necessário usá-la mais em parte alguma da sua versão do Evangelho do Senhor.

Seguramente, Jesus não usou a palavra Graça por não existir no Aramaico, mas todas as palavras usadas por Jesus podem e devem ser lidas com as lentes da Graça.

Jesus, por ter falado em aramaico, expressamente não fez uso dela, mas inquestionavelmente a experimentou e a viveu abundantemente, pois Ele era em si a Graça.

Jesus viveu a Graça e a transmitiu o tempo todo.

São Paulo, depois, quem inculca a palavra Graça (facilitado o uso por sua formação em grego clássico) na Teologia e a insere no contexto da revelação.
No chamado CORPUS PAULINUS, os textos sagrados de Paulo canonizados na Bíblia, Paulo faz uso da palavra Graça mais de cem vezes, razão pela qual ele é chamado de “teólogo da Graça”.

Nos evangelhos Sinóticos, especialmente Mateus e Marcos, as expressões REINO DE DEUS e REINO DOS CÉUS podem e devem ser subtendidas como espaços da GRAÇA.

A Graça, portanto, é o próprio Reino de Deus ou Reino dos Céus.

Lucas (4,16-ss) faz uso expresso como na seguinte passagem: “(…) mensagem da Graça que saia de sua boca”.

Novamente a Graça é encarada como o favor amoroso de Deus.

Eis exemplos de textos dos evangelhos sinóticos que fazem menções implícitas ou explícitas a Graça: Mc 4,26-29, Mt 13, 31-33, Mt 25, 1-12, Lc 13, 6-9, Lc 16, 1-8.

A Graça no Novo Testamento assume especial força no SEGUIMENTO DE JESUS.

Seguir Jesus é Graça, porque Jesus é Graça.

Mas, importante, a Graça do seguimento de Jesus consiste preponderantemente em assumir a cruz.

Mt 16, 24-ss: “(…) se alguém quer me seguir renuncie a si mesmo e tome a sua cruz”.

O texto não trata diretamente da Graça, mas a dinâmica de seguir Jesus, renunciar a tudo e abraçar a cruz é EXPERIÊNCIA DA GRAÇA.

Para o cristão, goza de primazia a certeza que encontrar Jesus foi a melhor coisa na vida, a graça.

Mas o paradoxo é que tomar a cruz é alegria, por isso mesmo GRAÇA.

A experiência da Graça reside na disponibilidade de ouvir Jesus, mesmo sabendo que Ele mesmo não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9, 57-62).

E quem segue Jesus, experimenta a graça maior da filiação Divina.

Jesus viveu intensamente, enquanto homem, a graça da filiação Divina, guardando em seu coração as palavras do Salmo 2 (“Tu és meu filho e hoje eu te gerei”).

Essa intimidade é delineada em várias passagens dos Evangelhos, como em Mc 14,36: “(…) e dizia Abbá, tudo é possível para Ti”).

A relação de Jesus com Deus é de plena convicção da filiação Divina, ABBÁ-PAI.

Mt 11,25-27, “GRAÇAS TE DOU, PAI”, a intimidade Pai-Filho, que permanece até hoje num diálogo universal composto de apenas duas palavras, uma ao outro, face a face, pessoas da Santíssima Trintade, Pai, Filho, Pai, Filho, caracteriza pela louvação ao Pai e pelo amor do Pai ao Filho e aos homens todos.
Nisso consiste o preceito evangélico que só se conhece verdadeiramente o Pai por meio do Filho; conhecer o Pai é fazer a experiência íntima do Filho, é viver a Graça, Cristo Jesus.

Em hebraico, conhecer é fazer a experiência, bem ao sabor da natureza concretista que até hoje caracteriza o pensamento judaico.

O conhecimento, na linguagem Bíblica, é intimidade, participação. Logo, o conhecimento é a Graça, porque implica estar junto de Deus.

Lucas traduz esta idéia em muitos momentos do seu Evangelho, como, por exemplo, Lc 23, 34-46; Mateus, também: Mt 6,9; 7, 7-11; 23,9; 25, 40-45; 18,14; 5,44; O mesmo se vê em Marcos, por exemplo: 11,25.
E São João?

João, o discípulo amado, foi quem melhor entendeu Jesus Cristo.

Para João era fácil acreditar na ressurreição, porque seu coração estava repleto do amor de Cristo.

João viveu a Graça o tempo todo.

Para João, a VIDA era e é a própria PALAVRA e a PALAVRA, o fio condutor da GRAÇA, tudo numa unidade cíclica.

Jo 3, 16 explicita tal sentimento de forma muito profunda, mística. A vida que Jesus comunica é a Graça, vida eterna. Para João, a vida eterna começa agora, já. Assim, conhecer Cristo é VIDA e, portanto, GRAÇA.
Jo 1,13: afirma que a vida vem do ALTO, é Divina; assim, é um dom. E em sendo um dom de Deus não é algo que se pode conquistar pelos próprios méritos, mas pela misericórdia de Deus, autor da vida e da Graça.

Trata-se de um conceito mais profundo que o de Reino do Céu, porque não aborda o seguimento em si, mas o Cristo em pessoa.

Paulo, chamado o maior teólogo de todos os tempos, também une Jesus Cristo à Graça.

Para São Paulo, a Graça é o centro da experiência cristã; a fé cristã é a graça experimentada.

Paulo é quem transforma a palavra Graça, no seu sentido mais literal, numa experiência tipicamente cristã.

São Paulo faz uso dela para duas coisas em especial: 1) justificação (explicando a razão do pecado) e 2) acentuar o conceito de VIVER EM CRISTO.

Nesse sentido, merece destaque Rm 3, 21-24 e 8,1.

Também 1 Cor 3, 23 e 2 Cor 5,17; 10,7; Fp, 1,23.

Enfim, GRAÇA É A VIDA EM CRISTO JESUS.

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One Response to GRAÇA: ANOTAÇÕES TEOLÓGICAS A RESPEITO DA GRAÇA

  1. cremoneze

    Obrigado, Márcio. Um forte abraço…

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